- O problema do TEPT complexo e por que ele vai além do TEPT clássico
- Identificação com o agressor: definição e componentes
- Dúvida sobre avaliações relacionadas ao abuso: definição e componentes
- O que o estudo de Lahav e cols. (2026) encontrou: desenho, método, resultados
- Preditores específicos: substituição da agência e dúvida sobre o abuso
- Implicações clínicas: trabalhar IWA e DARA no tratamento
- Limitações e próximos passos
- Conclusão
- FAQ
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- Referências bibliográficas
- Meus Livros…
- Livraria Álvaro Biano

O TEPT complexo começa onde o TEPT clássico encontra seu limite descritivo. Não é uma simples variação de gravidade, mas uma configuração qualitativamente distinta de psicopatologia pós-traumática, reconhecida formalmente pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11) em 2018. O estudo longitudinal conduzido por Yael Lahav e colaboradores, publicado em 2026 no European Journal of Psychotraumatology, abre caminho para compreender por que mulheres adultas com história de abuso na infância continuam a apresentar sintomas décadas após o fim do abuso — e o que pode estar perpetuando esse sofrimento sem que elas necessariamente reconheçam a origem.
O problema do TEPT complexo e por que ele vai além do TEPT clássico
Para compreender a relevância do que Lahav e sua equipe investigaram, é preciso primeiro situar o quadro clínico que eles escolheram estudar. O TEPT clássico, reconhecido nos manuais diagnósticos há décadas, organiza-se em torno de três agrupamentos de sintomas diretamente relacionados ao evento traumático: reexperimentação no presente, evitação de pistas associadas e sensação persistente de ameaça. É um quadro coerente com experiências pontuais ou delimitadas, como acidentes, combates militares ou assaltos.
A CID-11, publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2018, reconheceu formalmente o TEPT complexo como categoria diagnóstica distinta. O TEPT-C mantém os três agrupamentos do TEPT clássico e acrescenta três novos, agrupados sob a rubrica de perturbações da auto-organização (DSO, na sigla em inglês): desregulação afetiva, autoconceito negativo e perturbações nos relacionamentos. Essa configuração clínica emerge tipicamente em contextos de trauma prolongado, repetido e interpessoal, exatamente o cenário característico do abuso na infância crônico.

Prevalência do TEPT-C varia de 0,5% a 7,7% em amostras comunitárias adultas, podendo chegar a 36% em amostras clínicas. Evidência acumulada indica que o TEPT-C está mais fortemente associado a trauma na infância do que o TEPT clássico. Essa observação, somada à constatação clínica de que nem todas as pessoas que sofreram abuso desenvolvem TEPT-C e de que a gravidade varia enormemente entre as que desenvolvem, motivou a busca por fatores que expliquem por que certas sobreviventes seguem adoecendo décadas depois.
O que o estudo de Lahav e colaboradores acrescenta a esse panorama é uma pergunta sobre os mecanismos pelos quais a história do abuso se perpetua no funcionamento psicológico atual da sobrevivente — não como memória passiva, mas como processo ativo que organiza a relação consigo, com os outros e com a realidade.
Identificação com o agressor: definição e componentes
O conceito de identificação com o agressor tem raízes profundas na psicanálise. Foi introduzido por Sándor Ferenczi em 1932 e 1933, quando o psicanalista húngaro percebeu que algumas crianças vítimas de abuso incorporavam as perspectivas, afetos e até a agressividade do agressor, como forma de sobreviver à situação de desamparo. Ferenczi observou que essa identificação não era psicose nem confusão delirante, mas estratégia de sobrevivência em contexto de poder completamente assimétrico.
Lahav e sua equipe operacionalizaram esse constructo por meio da Identification with the Aggressor Scale (IAS), instrumento de 23 itens que avalia quatro componentes: a substituição da própria agência pela do agressor, a hipersensibilidade ao estado emocional do agressor, a adoção da perspectiva do agressor sobre o abuso, e a identificação com a agressão do próprio agressor. O instrumento apresentou consistência interna excelente na amostra estudada, com α de 0,94 para o escore total.
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Dúvida sobre avaliações relacionadas ao abuso: definição e componentes
Se a identificação com o agressor descreve uma colonização da subjetividade pelo perpetrador, a dúvida sobre avaliações relacionadas ao abuso (DARA, na sigla em inglês) descreve algo diferente: a perda da capacidade de formar avaliações estáveis sobre a experiência abusiva. O constructo foi formulado por Lahav em trabalho recente e nomeia a incerteza persistente que sobreviventes apresentam ao tentar avaliar aspectos-chave do abuso sofrido.
O instrumento que mede esse constructo, a Abuse Doubt Scale (ADS), tem 10 itens que se distribuem em três componentes: dúvida sobre o abuso em si (sua gravidade, legitimidade ou forma de nomeá-lo), dúvida sobre si durante o abuso (sensação de controle e capacidade de prevenir), e dúvida sobre o agressor (sua periculosidade e confiabilidade). É importante destacar que DARA não é negação do abuso nem dissociação; é dificuldade em manter avaliações estáveis sobre o que ocorreu. O constructo foi construído para distinguir-se de outras avaliações maladaptativas comuns em sobreviventes, como autopercepções negativas ou avaliações globais do trauma.
A pesquisa anterior de Lahav e colaboradores já havia mostrado que DARA está associada a sentimentos de culpa, vergonha, dissociação e sintomas de TEPT clássico. O estudo recém-publicado avança ao perguntar especificamente sobre TEPT complexo.
O que o estudo de Lahav e cols. (2026) encontrou: desenho, método, resultados
O estudo que conectou empiricamente esses dois constructos ao TEPT complexo foi desenhado como uma investigação longitudinal de duas ondas, com intervalo de aproximadamente cinco meses. A amostra final foi composta por 273 mulheres adultas israelenses com histórico de abuso na infância, com idade média de 33 anos. Aproximadamente 91,6% da amostra relatou abuso emocional na infância, 64,5% abuso sexual e 47,3% abuso físico. Três quartos da amostra havia sofrido polivitimização, e quase 90% relatou abuso recorrente.
Os instrumentos utilizados incluíram a CTQ-SF para avaliar o histórico de abuso, a IAS para identificar com o agressor, a ADS para dúvida sobre o abuso, e a International Trauma Questionnaire (ITQ), instrumento alinhado à CID-11 que avalia separadamente sintomas de TEPT e sintomas de DSO. As análises foram conduzidas por meio de modelagem de equações estruturais, com modelos hierárquicos que progressivamente ajustavam os efeitos pela polivitimização e pelos sintomas basais.
No momento T2, 22,7% da amostra preenchia critérios para TEPT-C e 6,2% para TEPT clássico. O agrupamento sintomático mais prevalente foi a desregulação afetiva (67%), seguido pelas perturbações de relacionamentos (59,7%). Esses números reforçam o padrão conhecido do TEPT-C: o núcleo da psicopatologia está nas perturbações da auto-organização, e não nos sintomas intrusivos clássicos.
Preditores específicos: substituição da agência e dúvida sobre o abuso
O modelo final, controlado por polivitimização, sintomas de TEPT basais e sintomas de DSO basais, identificou dois preditores específicos. Para sintomas de TEPT em T2, o preditor específico foi a substituição da própria agência pela do agressor, com β = 0,147 e p = 0,035. Para sintomas de DSO em T2, os preditores específicos foram tanto a substituição da agência do agressor (β = 0,147, p = 0,028) quanto a dúvida sobre o abuso (β = 0,17, p = 0,017). O modelo explicou 27,1% da variância em TEPT e 23,3% da variância em DSO.
Esses achados sugerem que a substituição da agência funciona como mecanismo transversal, mantendo tanto a reexperimentação do trauma quanto as perturbações de auto-organização. A dúvida sobre o abuso, por outro lado, atua especificamente sobre as perturbações da auto-organização, talvez porque ela comprometa a capacidade da sobrevivente de organizar uma narrativa coerente sobre si mesma em relação ao que viveu.
Para os sintomas de perturbação da auto-organização — o núcleo do TEPT complexo —, dois preditores emergiram: a substituição da própria agência pelo agressor e a dúvida persistente sobre o abuso. Esse padrão é coerente com o que a clínica observa: sobreviventes que perderam contato com seus próprios impulsos e que duvidam do próprio julgamento tendem a apresentar os sintomas mais profundos de identidade e relacionamento.
Implicações clínicas: trabalhar IWA e DARA no tratamento
O que esses achados sugerem para a prática clínica é que intervenções focadas exclusivamente na exposição gradual ao trauma podem não ser suficientes. A persistência da substituição da agência e da dúvida sobre o abuso representa camadas adicionais de trabalho terapêutico que precisam ser abordadas explicitamente.
Os próprios autores do estudo apontam para abordagens modulares como o STAIR (Skills Training in Affect and Interpersonal Regulation) combinado com terapia narrativa, ou sua versão ampliada ESTAIR. Essas abordagens estruturam o tratamento em módulos sequenciais: regulação afetiva e interpessoal, seguida de processamento narrativo do trauma. O estudo argumenta que incorporar trabalho focado em IWA e DARA dentro dos módulos de regulação afetiva e autoconceito pode aumentar a responsividade ao tratamento, ao abordar diretamente a submissão dissociativa, as representações fragmentadas do self e a coerência autobiográfica rompida.
Aqui, cabe mencionar que instrumentos clínicos desenvolvidos no contexto brasileiro podem oferecer vias complementares. A Análise Psicossomática Clínica (APC), que desenvolvi e aplico, trabalha com a leitura do corpo sintomático como narrativa do que foi internalizado nas relações precoces, e o Método TEN, que desenvolvi com Maryanne Braga, pode oferecer ferramentas práticas para reorganizar padrões de autoidentificação e autodúvida instalados na infância. Ambos os recursos dialogam com a proposta do estudo de Lahav ao reconhecer que a recuperação do TEPT-C exige trabalhar tanto o corpo quanto a narrativa do self.

Limitações e próximos passos
Como todo estudo empírico, este tem limitações que os autores explicitam com honestidade e que devem ser consideradas antes de generalizar os achados. A amostra é exclusivamente de mulheres adultas israelenses, recrutadas em parte por conveniência via Facebook, o que limita a generalização para homens sobreviventes, para outros contextos culturais e para mulheres em outros estratos socioeconômicos. O instrumento principal é autorrelato, com riscos conhecidos de viés de resposta e de variância de método compartilhado.
O desenho longitudinal de duas ondas, embora superior a um estudo transversal, também não permite examinar relações bidirecionais. É possível, por exemplo, que a identificação com o agressor aumente os sintomas de TEPT, que por sua vez intensifiquem a identificação com o agressor, em um ciclo de retroalimentação que exigiria três ou mais pontos de medida para ser modelado adequadamente. Finalmente, o tamanho amostral, embora adequado para a modelagem de equações estruturais com o número de variáveis utilizado, é relativamente pequeno para explorar interações mais complexas ou realizar análises de subgrupos que poderiam revelar trajetórias diferenciadas de risco e resiliência.
Os próximos passos apontados pelo próprio estudo incluem a necessidade de replicar os achados em amostras mais diversas — incluindo homens, populações de diferentes contextos culturais e pacientes em tratamento — e de investigar os mecanismos subjacentes que explicam por que a substituição da agência e a dúvida sobre o abuso se mantêm como preditores mesmo após o controle de outras variáveis. Uma hipótese a ser explorada é que esses dois constructos estejam ligados a processos dissociativos ainda não completamente mapeados, nos quais a memória traumática não é apenas não-integrada narrativamente, mas ativamente deformada pela perspectiva do agressor que foi introjetada.
Conclusão
O estudo de Lahav e colaboradores não oferece respostas definitivas, nem pretende. Mas ele fornece algo talvez mais valioso para o clínico que recebe no consultório mulheres com histórias de abuso na infância: uma lente mais focalizada. Ao mostrar que a substituição da agência pelo agressor e a dúvida sobre o abuso operam como preditores independentes de sintomas pós-traumáticos complexos, a pesquisa sugere que esses processos merecem um lugar na anamnese e no planejamento terapêutico — não como curiosidades teóricas, mas como alvos de intervenção com respaldo empírico.
Há uma dimensão quase filosófica nesse trabalho. O que o abuso crônico na infância rouba, mais do que a segurança física, é a possibilidade de habitar a própria experiência com clareza. A identificação com o agressor instala um inquilino estrangeiro na casa da subjetividade. A dúvida sobre o abuso embaça os vidros através dos quais a pessoa vê seu passado. Recuperar a agência e a nitidez da própria história é, nesse sentido, um ato de justiça epistêmica — devolver à sobrevivente o direito de saber o que viveu e de sentir o que sente sem pedir permissão a ninguém, muito menos ao fantasma do agressor.
Nota editorial: este artigo é informativo e não substitui acompanhamento psicoterapêutico. Reconhecer padrões de identificação com o agressor ou dúvida sobre o abuso vivido não constitui diagnóstico nem substitui avaliação clínica. Pessoas que se identificam com essas vivências devem procurar profissional de saúde mental habilitado.
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FAQ
1. O que diferencia o TEPT complexo do TEPT clássico?
O TEPT clássico caracteriza-se por três grupos de sintomas: reexperimentação do trauma (flashbacks, pesadelos), evitação de estímulos associados ao evento e sensação persistente de ameaça (hipervigilância, sobressalto). O TEPT complexo, reconhecido pela CID-11 em 2022, inclui esses três grupos e acrescenta três domínios adicionais que compõem a chamada perturbação da auto-organização: desregulação afetiva (dificuldade de controlar emoções, explosões de raiva, sensação de vazio), autoconceito negativo (crenças de que se é indigno, quebrado ou fundamentalmente defeituoso) e perturbação de relacionamentos (dificuldade persistente em manter vínculos, oscilando entre dependência excessiva e isolamento). Essa distinção é clinicamente relevante porque os protocolos de tratamento para TEPT clássico, focados principalmente em exposição ao trauma, podem ser insuficientes para abordar as dimensões identitárias e relacionais do TEPT complexo, que exigem intervenções adicionais voltadas para regulação emocional e habilidades interpessoais.
2. O que é identificação com o agressor e por que ela acontece?
A identificação com o agressor é um mecanismo psicológico descrito originalmente pelo psicanalista Sándor Ferenczi na década de 1930 e posteriormente operacionalizado por Yael Lahav e colegas. Trata-se de um processo pelo qual a vítima de abuso, especialmente quando criança e dependente do agressor, internaliza as crenças, perspectivas e até comportamentos da figura abusiva como estratégia de sobrevivência psíquica. O mecanismo inclui quatro componentes: substituição da própria agência pelo agressor (sentir que não se tem vontade própria), hipersensibilidade ao agressor (vigilância constante de seus humores), adoção da perspectiva dele sobre o abuso (justificar o ocorrido ou culpar-se) e identificação com a agressão (reproduzir padrões abusivos ou buscar parceiros similares). Acontece porque, para uma criança que não pode fugir nem lutar, preservar o vínculo com o cuidador é prioritário para a sobrevivência, e alinhar-se psiquicamente com ele reduz o terror da impotência, ainda que ao custo de distorcer a própria subjetividade.
3. A dúvida sobre o abuso significa que a pessoa não tem certeza se foi abusada?
Não exatamente. A dúvida sobre avaliações relacionadas ao abuso, como definida por Lahav e colaboradores, não é primariamente uma dúvida factual sobre a ocorrência do abuso. Embora algumas sobreviventes possam vacilar factualmente — especialmente se sofreram gaslighting —, o constructo descreve uma incerteza mais difusa e crônica em três áreas: severidade do abuso (questionar se foi realmente grave, comparar-se a outras vítimas e sentir que não tem direito de se queixar), própria agência durante o abuso (questionar o quanto se poderia ter feito para impedir, o quanto se colaborou ou provocou) e natureza do agressor (hesitar sobre se ele é de fato perigoso, se sabia o que fazia, se deveria ser perdoado). Essa dúvida não é um déficit de memória, mas um padrão cognitivo-emocional que emerge como consequência do abuso e funciona como um mecanismo de manutenção do sofrimento, bloqueando a elaboração do trauma ao perpetuar a ambiguidade sobre a legitimidade da própria experiência.
4. O que o estudo de 2026 descobriu sobre a relação entre esses mecanismos e o TEPT complexo?
O estudo longitudinal conduzido por Lahav, Cloitre, Shevlin, Ben-Ezra e Karatzias acompanhou 273 mulheres sobreviventes de abuso na infância em dois momentos ao longo de 2023 e encontrou dois preditores específicos. Para os sintomas de TEPT clássico em T2, a substituição da própria agência pelo agressor (um componente da identificação com o agressor) mostrou-se um preditor significativo mesmo após controlar a severidade da polivitimização e os níveis basais de sintomas. Para os sintomas de perturbação da auto-organização — o núcleo do TEPT complexo —, tanto a substituição da agência quanto a dúvida sobre o abuso emergiram como preditores independentes. Isso significa que, embora a substituição da agência afete tanto os sintomas clássicos quanto os complexos, a dúvida sobre o abuso parece operar de forma mais seletiva, corroendo especificamente as dimensões de auto-organização (identidade, regulação emocional e relacionamentos), e não tanto os sintomas de reexperimentação e hipervigilância.
5. Esses achados se aplicam a homens e a outras culturas?
Essa é uma questão que o próprio estudo não responde, e os autores são explícitos ao apontar a limitação. A amostra foi composta exclusivamente por mulheres israelenses adultas, recrutadas por conveniência principalmente via redes sociais. Não há como afirmar, com base nesses dados, que os mesmos mecanismos operem de forma idêntica em homens sobreviventes de abuso na infância ou em pessoas de outros contextos culturais. Fatores culturais podem influenciar tanto a forma como o abuso é interpretado (o que pode modular a dúvida sobre o abuso) quanto as vias de expressão da identificação com o agressor. Além disso, a socialização de gênero pode afetar a propensão a internalizar a agência alheia ou a duvidar das próprias percepções. A replicação em amostras diversas é apontada como uma prioridade pelos autores, e até que isso aconteça, a generalização deve ser feita com cautela.
6. Como tratar a identificação com o agressor e a dúvida sobre o abuso em terapia?
O estudo sugere que abordagens modulares para TEPT complexo, como o STAIR (Skills Training in Affect and Interpersonal Regulation) combinado com terapia narrativa, podem incorporar trabalho focado nesses dois mecanismos. A psicoeducação é um primeiro passo: ajudar a paciente a compreender que a identificação com o agressor e a dúvida sobre o abuso são consequências previsíveis da situação traumática, e não evidências de que ela é conivente ou de que o abuso não foi grave. A reestruturação cognitiva pode ser usada para examinar crenças específicas derivadas desses mecanismos. A elaboração narrativa pode ajudar a reconstruir a história de vida discriminando a voz do agressor da voz própria. Em contextos clínicos brasileiros, instrumentos como a Análise Psicossomática Clínica, que lê o corpo sintomático como narrativa das relações precoces, e o Método TEN, focado em padrões neurolinguísticos de autoidentificação, podem oferecer ferramentas complementares para abordar essas questões em sua dimensão somática e linguística.
7. Quais são os próximos passos de pesquisa nessa área?
Os autores do estudo apontam várias direções. Primeiro, é necessário replicar os achados em amostras diversas — incluindo homens, populações de diferentes países e pacientes em tratamento ativo — para verificar se os mesmos preditores se mantêm. Segundo, estudos com três ou mais pontos de medida no tempo poderiam examinar relações bidirecionais e ciclos de retroalimentação entre os mecanismos e os sintomas. Terceiro, é importante investigar os processos subjacentes que explicam a persistência desses mecanismos: qual o papel da dissociação, do apego inseguro e de outros correlatos na manutenção da identificação com o agressor e da dúvida sobre o abuso? Quarto, estudos clínicos controlados poderiam testar se intervenções que focam especificamente nesses dois constructos produzem ganhos incrementais quando adicionadas a protocolos padrão para TEPT complexo. Esse tipo de pesquisa é fundamental para refinar os instrumentos terapêuticos e garantir que o tratamento do TEPT complexo vá além do controle de sintomas, alcançando os mecanismos que mantêm o sofrimento ativo ao longo dos anos.
Referências bibliográficas
- Doubt regarding abuse-related appraisals and identification with the aggressor as predictors of complex PTSD in female child abuse survivors
- The International Trauma Questionnaire: development of a self-report measure of ICD-11 PTSD and complex PTSD
- ICD-11 complex post-traumatic stress disorder: simplifying diagnosis in trauma populations
- Skills Training in Affective and Interpersonal Regulation (STAIR) for complex PTSD: a systematic review
- The identification with the aggressor scale: development and initial validation
- The abuse doubt scale: measuring uncertainty about abuse-related appraisals
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